Docinhos Divinos

Gula, diriam os cristãos, é pecado. Nunca entendi o porquê, exatamente. Na minha cabeça de criança, desejar comer mais do que tem no prato seria uma forma específica de cobiça, punida não com a danação eterna mas com uma dor de barriga que pareceria eterna enquanto durasse (ou, hoje em dia, com algumas arrobas ao redor da cintura).

Enfim, teorizo. Nem é esse o tema do site, ou a especialidade da autora. O fato é que Deus está presente à mesa em maneiras insuspeitas. Não falo tanto das dietas religiosas (kosher, halal), mas dos pratos que levam nomes divinos.

Os portugueses são profílicos nessa prática – que outro povo sairia-se com iguarias como papo de anjo, toucinho do céu, barriga de freira e bolo paraíso? São alguns dos chamados doces conventuais, nascidos nas cozinhas das ordens religiosas do nosso país-irmão lá pelo século XV.

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Selo português de uma série celebrando os doces conventuais

Aprendemos que os doces portugueses são carregados de gemas porque as freiras tinham que dar cabo doingrediente, já que usavam as claras de ovos para engomar os hábitos que vestiam. Bem, isso é só parte da história. Açúcar, ingrediente que esses doces consomem em quantidades olímpicas, nunca foi coisa muito barata; além disso, uma doçaria tão complexa não nasceria somente da mera necessidade. Quando você precisa se livrar de um ingrediente, não gasta outros tantos ainda mais caros na mistura – não faz sentido, certo?

A charada se resolve se olharmos melhor para o cenário dos doces: para os conventos iam as filhas de nobres e famílias abastadas que não conseguiam casamento. Junto com o dote, as moças vinham com seus hábitos alimentares e receitas de família -mesas onde açúcar não era raro, portanto. Ora, com dinheiro, conhecimento e um ambiente de recolhimento, dá para criar bastante coisa…

Pondo tudo isso junto, nasciam os docinhos que acabaram influenciando nosso paladar tantos séculos para a frente (quindim, pudim de leite e queijadinha são parentes dos doces de convento). Acompanhado de um bom cálice de vinho do Porto, que se danem as calorias e o pecado da gula – para citar outro chavão cristão, é de comer de joelhos, oras pois…

Para visitar: Mostra Internacional de Doces e Licores Conventuais, que acontece anualmente em novembro no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal.

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