Café e Boa Companhia

Eu sou péssima com homenagens e discursos em geral, mas agora que o Comestível finalmente ganhou seu endereço próprio (e começa uma reforma no visual), eu bem que precisaria fazer uma homenagem discreta à pessoa que me pôs escrevendo sobre o assunto.

Comida sempre me interessou, mas só me dediquei a isso porque eu fui trabalhar com uma especialista no assunto. A cafeinômana Giu, apelidada Poderosa Chefinha (digamos que a diferença de altura de uns bons vinte e cinco centímetros justificava o apelido) treinou minha pronúncia de vários pratos e me apresentou várias coisas no ramo da culinária. Ela só não conseguiu me convencer ainda a comer fígado e tomar café sem açúcar – ela ficava horrorizada com a quantidade olímpica de sachês que eu jogava dentro da xícara do pretinho pós-almoço (e também com o fato de eu trabalhar com doze janelas do Firefox ao mesmo tempo, mas isso é outra história).

Ela é especialista em café e escreveu o que é, para mim, a Bíblia do assunto: o Dicionário Gastronômico do Café e suas Receitas. E hoje é o aniversário dela. Portanto, fica aqui o meu agradecimento por todo o apoio e o desejo de muitos anos de vida e muitos bules de café decente para minha ex-chefe e ainda amiga, o motor secreto do Comestível.

Para acompanhar: Cappucino-chocolate bites, do site da Martha Stewart.

Não é sopa

Na minha batalha para falar menos palavrão (promessa de Ano Novo, de Quaresma, de bom exemplo para o filho – você escolhe), vira-e-mexe acabo me saindo com um berro bravo que não faz muito sentido à primeira vista: “ô, sopa!”

Levanta a mão se você reconheceu de onde veio essa ofensa que não é ofensa…

Pois é. É por causa da Mafalda!

A personagem, criada pelo desenhista argentino Quino em 1964, tanto detesta sopas que, nas tirinhas, a  palavra é utilizada como palavrão por diversos personagens. Para desespero da  garota, tão preocupada com a humanidade (e com o fato do Pica-pau nunca ter sido indicado ao Oscar), o prato é uma constante nas refeições familiares. E haja jogo de cintura para tentar se livrar da obrigação de toma-las…

Vale qualquer coisa: apelar para cartas à ONU, reclamar da liberdade de imprensa (quando o jornal publica uma receita da ignóbil refeição) ou até apelar para a boa e velha chantagem emocional para cima da mãe. Não que funcione, mas ela bem que tenta. Como dizem por aí, quem nunca?

Uma das ironias mais interessantes que Quino proporcionou aos leitores é que o irmãozinho de Mafalda, Guille, adora sopa. É a única grande diferença entre os irmãos, mas é algo intransponível para a garota. Seria o equivalente a alguma irmã minha adorar bife de fígado (se bem que tem uma que adora coração de galinha, que é quase empatado com fígado no meu ranking de “não como”. Mas eu sou um tiquinho mais educada que a Mafalda para demonstrar isso).

Quino já disse várias vezes que adora sopas, na medida em que Mafalda as odeia. Não conheço-o mas imagino que ele deva ser um bom prato, já que em sua carreira pós-Mafalda há varias gags com restaurantes e alimentação em geral. Elas  renderam dois livros exclusivos sobre o assunto (A La Buena Mesa e, mais recentemente, La Aventura de Comer, ambos publicados pela argentina Ediciones de La Flor e sem tradução em português ainda – ed. Martins Fontes, para quando a versão nacional?).

Por isso, mesmo que eu goste dela (retomo ao tema em breve), meu palavrão de escolha, para o momento, é esse protesto mafaldístico: Ô Sopa!

Para ler: “Toda Mafalda”, Ed. Martins Fontes.

Para visitar: o site do Quino (em espanhol)