Pão com Maionese (uma história de vizinhos)

Quando morre uma pessoa idosa, ainda mais se essa pessoa já está doente há algum tempo, a sensação é estranhíssima. Era o esperado, claro – ninguém vive para sempre, a não ser (provavelmente) o Oscar Niemayer. Ainda assim, é dolorido, incômodo, triste, coloque aí a sua expressão esperada.

Soube ontem que meu vizinho de porta, seu Jacinto, faleceu após longa luta contra o Alzheimer, a velhice e o cansaço. Não fui ao enterro porque estava fora da cidade, mas devo uma visita à viúva, dona Cida. Ela, sua irmã Adelina e seu  Jacinto eram meus vizinhos de porta na infância e adolescência, num tempo em que a Mooca era uma cidade do interior – todo mundo conhecia todo mundo, todo mundo sabia da vida de todo mundo e não tinha porcaria nenhuma para fazer.

Por conta disso tudo, os vizinhos sabiam da vida uns dos outros. O que poderia ser uma encrenca ou uma mão na roda, dependendo da situação. Como aquela tarde em 1988.

Calhou de estar caindo o mundo, de eu e minhas irmãs termos voltado da escola no fim de tarde e – por algum motivo que não me lembro – não conseguirmos entrar em casa. Numa era sem celular, o jeito era esperar até minha mãe ou meu pai voltarem do trabalho. Nos debandamos para o número 89 – o velho jipe Aero Wyllis da dona Cida estava na garagem, então sabíamos que ela estava em casa. 

Enquanto esperávamos, dona Cida saiu-se com a única coisa que tinha para quatro crianças esfomeadas e três velhinhos com frio: pão com maionese Maionegg’s (concorrente da Helmann’s na época). Eu não me lembro de ter comido maionese na vida até ali, então foi um banquete daqueles que só crianças e velhinhos conseguem apreciar. Minha mãe apareceu bem mais tarde com a chave de casa,mas o “estrago” estava feito: até hoje dizem que eu como maionese com sanduíche e não sanduíche com maionese…

Saudade daquele tempo, daquela Mooca e das camisas engraçadas de seu Jacinto, no banco do carona do Aero Wyllis branco (dona Cida não deixava o marido dirigir o bólido). Que ele descanse em paz, como dizem. 

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Café e Boa Companhia

Eu sou péssima com homenagens e discursos em geral, mas agora que o Comestível finalmente ganhou seu endereço próprio (e começa uma reforma no visual), eu bem que precisaria fazer uma homenagem discreta à pessoa que me pôs escrevendo sobre o assunto.

Comida sempre me interessou, mas só me dediquei a isso porque eu fui trabalhar com uma especialista no assunto. A cafeinômana Giu, apelidada Poderosa Chefinha (digamos que a diferença de altura de uns bons vinte e cinco centímetros justificava o apelido) treinou minha pronúncia de vários pratos e me apresentou várias coisas no ramo da culinária. Ela só não conseguiu me convencer ainda a comer fígado e tomar café sem açúcar – ela ficava horrorizada com a quantidade olímpica de sachês que eu jogava dentro da xícara do pretinho pós-almoço (e também com o fato de eu trabalhar com doze janelas do Firefox ao mesmo tempo, mas isso é outra história).

Ela é especialista em café e escreveu o que é, para mim, a Bíblia do assunto: o Dicionário Gastronômico do Café e suas Receitas. E hoje é o aniversário dela. Portanto, fica aqui o meu agradecimento por todo o apoio e o desejo de muitos anos de vida e muitos bules de café decente para minha ex-chefe e ainda amiga, o motor secreto do Comestível.

Para acompanhar: Cappucino-chocolate bites, do site da Martha Stewart.

Docinhos Divinos

Gula, diriam os cristãos, é pecado. Nunca entendi o porquê, exatamente. Na minha cabeça de criança, desejar comer mais do que tem no prato seria uma forma específica de cobiça, punida não com a danação eterna mas com uma dor de barriga que pareceria eterna enquanto durasse (ou, hoje em dia, com algumas arrobas ao redor da cintura).

Enfim, teorizo. Nem é esse o tema do site, ou a especialidade da autora. O fato é que Deus está presente à mesa em maneiras insuspeitas. Não falo tanto das dietas religiosas (kosher, halal), mas dos pratos que levam nomes divinos.

Os portugueses são profílicos nessa prática – que outro povo sairia-se com iguarias como papo de anjo, toucinho do céu, barriga de freira e bolo paraíso? São alguns dos chamados doces conventuais, nascidos nas cozinhas das ordens religiosas do nosso país-irmão lá pelo século XV.

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Selo português de uma série celebrando os doces conventuais

Aprendemos que os doces portugueses são carregados de gemas porque as freiras tinham que dar cabo doingrediente, já que usavam as claras de ovos para engomar os hábitos que vestiam. Bem, isso é só parte da história. Açúcar, ingrediente que esses doces consomem em quantidades olímpicas, nunca foi coisa muito barata; além disso, uma doçaria tão complexa não nasceria somente da mera necessidade. Quando você precisa se livrar de um ingrediente, não gasta outros tantos ainda mais caros na mistura – não faz sentido, certo?

A charada se resolve se olharmos melhor para o cenário dos doces: para os conventos iam as filhas de nobres e famílias abastadas que não conseguiam casamento. Junto com o dote, as moças vinham com seus hábitos alimentares e receitas de família -mesas onde açúcar não era raro, portanto. Ora, com dinheiro, conhecimento e um ambiente de recolhimento, dá para criar bastante coisa…

Pondo tudo isso junto, nasciam os docinhos que acabaram influenciando nosso paladar tantos séculos para a frente (quindim, pudim de leite e queijadinha são parentes dos doces de convento). Acompanhado de um bom cálice de vinho do Porto, que se danem as calorias e o pecado da gula – para citar outro chavão cristão, é de comer de joelhos, oras pois…

Para visitar: Mostra Internacional de Doces e Licores Conventuais, que acontece anualmente em novembro no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal.

Decálogo do Comestível

Para deixar bem claro do que se trata, eis as regras da casa:

1. Este é um site de comida, mas não tem receitas com fotos tipo “de revista” feitas com ingredientes orgânicos ou caros ou ambos. Minha cozinha é uma zona, eu não sei tirar fotos ainda, e tem gente que se encaixa melhor nessa categoria…

2. Este é um site de comida, mas não se avalia restaurantes por aqui. De novo, tem gente que se encaixa melhor nessa categoria.

3. Este é um site de comida, mas a autora se reserva ao direito de não saber harmonizar vinhos (aliás, ela mal os toma!) ou de não falar de trufas ou do ingrediente da moda.

4. Este é um site de comida e a autora se reserva ao direito de querer falar de pastel de feira e coxinha de festa de criança não porque é “roots” ou porque está na moda, mas porque ela gosta mesmo e ponto.

5. Este é um site de comida, mas aqui não se fala em “comfort food”. Pelo menos não com esse termo enjoado… Aqui se evita ao máximo os cacoetes da crítica gastronômica, para o bem dos leitores e do estômago da autora.

6. Este é um site de comida, mas também se fala de desenho animado, de música e de livros, e também de Política, História e Filosofia se der na telha. Desde que tenha a ver com comida, qualquer assunto está valendo.

7. Este é um site de comida, mas não se fala de comida light ou diet. Entende-se a necessidade do tema, mas a autora acredita que a vida é muito curta para se contar calorias.

8. Este é um site de comida e a autora se reserva no direito de achar (com conhecimento de causa) que a avó dela cozinha melhor que o Alex Atala.

9. Este é um site de comida e a autora gostaria de dizer que estuda a História da Gastronomia nas horas vagas. E que, apesar disso, quando está passando um episódio da Nigella na tevê, ela para tudo para ver.

10. Este é um site de comida, e a autora – 50% italiana, 25% moura e 25% poliéster – acredita que alimentação tem que rimar com diversão. Portanto, venha se divertir!