Não é sopa

Na minha batalha para falar menos palavrão (promessa de Ano Novo, de Quaresma, de bom exemplo para o filho – você escolhe), vira-e-mexe acabo me saindo com um berro bravo que não faz muito sentido à primeira vista: “ô, sopa!”

Levanta a mão se você reconheceu de onde veio essa ofensa que não é ofensa…

Pois é. É por causa da Mafalda!

A personagem, criada pelo desenhista argentino Quino em 1964, tanto detesta sopas que, nas tirinhas, a  palavra é utilizada como palavrão por diversos personagens. Para desespero da  garota, tão preocupada com a humanidade (e com o fato do Pica-pau nunca ter sido indicado ao Oscar), o prato é uma constante nas refeições familiares. E haja jogo de cintura para tentar se livrar da obrigação de toma-las…

Vale qualquer coisa: apelar para cartas à ONU, reclamar da liberdade de imprensa (quando o jornal publica uma receita da ignóbil refeição) ou até apelar para a boa e velha chantagem emocional para cima da mãe. Não que funcione, mas ela bem que tenta. Como dizem por aí, quem nunca?

Uma das ironias mais interessantes que Quino proporcionou aos leitores é que o irmãozinho de Mafalda, Guille, adora sopa. É a única grande diferença entre os irmãos, mas é algo intransponível para a garota. Seria o equivalente a alguma irmã minha adorar bife de fígado (se bem que tem uma que adora coração de galinha, que é quase empatado com fígado no meu ranking de “não como”. Mas eu sou um tiquinho mais educada que a Mafalda para demonstrar isso).

Quino já disse várias vezes que adora sopas, na medida em que Mafalda as odeia. Não conheço-o mas imagino que ele deva ser um bom prato, já que em sua carreira pós-Mafalda há varias gags com restaurantes e alimentação em geral. Elas  renderam dois livros exclusivos sobre o assunto (A La Buena Mesa e, mais recentemente, La Aventura de Comer, ambos publicados pela argentina Ediciones de La Flor e sem tradução em português ainda – ed. Martins Fontes, para quando a versão nacional?).

Por isso, mesmo que eu goste dela (retomo ao tema em breve), meu palavrão de escolha, para o momento, é esse protesto mafaldístico: Ô Sopa!

Para ler: “Toda Mafalda”, Ed. Martins Fontes.

Para visitar: o site do Quino (em espanhol)

Decálogo do Comestível

Para deixar bem claro do que se trata, eis as regras da casa:

1. Este é um site de comida, mas não tem receitas com fotos tipo “de revista” feitas com ingredientes orgânicos ou caros ou ambos. Minha cozinha é uma zona, eu não sei tirar fotos ainda, e tem gente que se encaixa melhor nessa categoria…

2. Este é um site de comida, mas não se avalia restaurantes por aqui. De novo, tem gente que se encaixa melhor nessa categoria.

3. Este é um site de comida, mas a autora se reserva ao direito de não saber harmonizar vinhos (aliás, ela mal os toma!) ou de não falar de trufas ou do ingrediente da moda.

4. Este é um site de comida e a autora se reserva ao direito de querer falar de pastel de feira e coxinha de festa de criança não porque é “roots” ou porque está na moda, mas porque ela gosta mesmo e ponto.

5. Este é um site de comida, mas aqui não se fala em “comfort food”. Pelo menos não com esse termo enjoado… Aqui se evita ao máximo os cacoetes da crítica gastronômica, para o bem dos leitores e do estômago da autora.

6. Este é um site de comida, mas também se fala de desenho animado, de música e de livros, e também de Política, História e Filosofia se der na telha. Desde que tenha a ver com comida, qualquer assunto está valendo.

7. Este é um site de comida, mas não se fala de comida light ou diet. Entende-se a necessidade do tema, mas a autora acredita que a vida é muito curta para se contar calorias.

8. Este é um site de comida e a autora se reserva no direito de achar (com conhecimento de causa) que a avó dela cozinha melhor que o Alex Atala.

9. Este é um site de comida e a autora gostaria de dizer que estuda a História da Gastronomia nas horas vagas. E que, apesar disso, quando está passando um episódio da Nigella na tevê, ela para tudo para ver.

10. Este é um site de comida, e a autora – 50% italiana, 25% moura e 25% poliéster – acredita que alimentação tem que rimar com diversão. Portanto, venha se divertir!