Mais um pouco do quê?

Se você tem mais de 25 anos, provavelmente assistiu Aladdin no cinema, ou então em um daqueles VHS de caixa amarela que a Disney comercializava na época. E, se assistiu, aposto que nunca esqueceu dessa canção (no original cantada por Robin Williams, e no Brasil com a voz do grande dublador Márcio Simões):

O que isso tem a ver com o site, você se pergunta. Bem, pegue a letra a partir de 00:56 no vídeo e me diga – o Gênio está cantando o quê? “Pode dizer o que vai querer / mais um pouco de blá-blá-blá?”

Na verdade, eis aí um virundum comestível – é “mais um pouco de baklava“. Bem a propósito, porque, sendo um doce onipresente em todo o Oriente Médio, dá para imaginar que Aladdin, sendo pobre, devia sonhar com doces como esse durante a noite – no que o Gênio, muito esperto, o oferece como tentação na hora de apregoar suas habilidades.

Não sou eu que estou vendo demais, é o doce que é mesmo parte dos hábitos do povo do Oriente. Deixemos Claudia Roden – uma das grandes especialistas em comida árabe do mundo – falar sobre ele:

Por todo o Oriente Médio, as baklavas (…) estão presentes em todas as festas e são servidas em toda as ocasiões. Nenhuma padaria ou café pode ficar sem elas. Elas seguem até no lombo de burros nos feriados nacionais em que se fazem piqueniques nos cemitérios, preenchendo as cestas ao lado de picles, pão, alface e falafel. Eles são parte das celebrações aos mortos; símbolos do amor pelos que partiram e, que, assim se acredita, deixam as tumbas para brincar nos balanços e gangorras, e para apreciar os dançarinos, músicos, acrobatas e mágicos ao lado de seus parentes.

(The New Book of Middle Eastern Food,pg. 431)

Se você já foi a uma casa de esfirras na vida, já viu uma baklava de perto na geladeira de  doces árabes que, em geral, fica logo na entrada desse tipo de estabelecimento. É tradicionalmente cortada em losangos, recheada com pistache ou nozes e coberta com aquela calda de açúcar e água de flor de laranjeira que dá dor de dente só de olhar.

Aliás, parênteses. Um bom doce árabe não pode ficar nadando em calda. É preciso ter mão boa e senso de proporção para dosar a quantidade, e não deixar que o açúcar cubra o sabor do recheio…!

A baklava, pelo tanto que se sabe, é de origem otomana; ela aparece em várias versões não só no mundo árabe, mas nos Balcãs e países como Armênia, Chipre e Grécia. Como quase todo prato árabe, não existe uma versão definitiva ou D.O.C. para a baklava. Embora o recheio mais comum seja mesmo pistache ou nozes, é possível achar receitas com amêndoas, cardamomo, canela e cravo, entre outras. A calda também varia: água de rosas ou mel substituem a mistura de açúcar e água de flor de laranjeira.

Se você passar na sua casa de esfirras preferida hoje, peça um café sem açúcar, uma baklava e pronto: viagem para o Oriente garantida, pelo menos na imaginação. E nem precisa de Gênio pra atender o pedido (embora se aparecesse um no caminho, não seria de todo ruim…)

Para ler: The New Book of Middle Eastern Food, Claudia Roden (ed. Knopf), o clássico do gênero. Uma versão resumida, boa para iniciantes, é A Middle Eastern Feast (ed. Penguin).

Para ver: Aladdin (Disney) na versão remasterizada de preferência. Dublada ou legendada, à escolha do freguês.

Para tentar em casa: uma boa receita de baklava à moda síria (em inglês)