Falando abobrinhas

Todo mundo fala abobrinha em algum momento – é tão saudável quanto comer as ditas-cujas. Levar-se muito a sério e não comer vegetais encurtam a existência de qualquer um. Mas por que, exatamente, o ato de falar bobagens é chamado assim?

Tem a ver com a excelentíssima cédula abaixo ilustrada:

Para os menores de 45 anos no recinto, permitam-me a apresentação: esta é uma cédula de mil cruzeiros, estampada com a imagem de Pedro Álvares Cabral. Circulou no Brasil entre 1942 e 1967, e tinha o singelo apelido de “abobrinha”, por conta de sua cor discreta. Atrás tem uma reprodução do quadro “A Primeira Missa no Brasil“, de autoria de Victor Meireles (eu sempre achei que a pintura era do Pedro Américo… Viva São Google!).

Se vocês são bons de História, vão sacar que o cruzeiro foi desvalorizado trocentas vezes durante as várias crises econômicas que tivemos no país. Logo, as belas e chamativas “abobrinhas” – que eram as cédulas de maior valor em circulação – não valiam um tostão furado e perderam os zeros, comidos pela inflação. Daí que falar coisa que não era importante era como falar das “abobrinhas”. E daí vocês calculam o resultado: expressão idiomática mais duradoura do que a grana que a iniciou…!

Para comer: a receita de abobrinhas recheadas do blog Figos & Funghis – bem próxima da receita da senhora minha avó, Líbano praticamente D.O.C. 🙂

Para conhecer os companheiros da “abobrinha”, como o barão e outras notas de cruzeiro do tempo dos seus pais e avós, dê uma chegada no site do Nosso Dinheiro Através dos Tempos

 

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Docinhos Divinos

Gula, diriam os cristãos, é pecado. Nunca entendi o porquê, exatamente. Na minha cabeça de criança, desejar comer mais do que tem no prato seria uma forma específica de cobiça, punida não com a danação eterna mas com uma dor de barriga que pareceria eterna enquanto durasse (ou, hoje em dia, com algumas arrobas ao redor da cintura).

Enfim, teorizo. Nem é esse o tema do site, ou a especialidade da autora. O fato é que Deus está presente à mesa em maneiras insuspeitas. Não falo tanto das dietas religiosas (kosher, halal), mas dos pratos que levam nomes divinos.

Os portugueses são profílicos nessa prática – que outro povo sairia-se com iguarias como papo de anjo, toucinho do céu, barriga de freira e bolo paraíso? São alguns dos chamados doces conventuais, nascidos nas cozinhas das ordens religiosas do nosso país-irmão lá pelo século XV.

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Selo português de uma série celebrando os doces conventuais

Aprendemos que os doces portugueses são carregados de gemas porque as freiras tinham que dar cabo doingrediente, já que usavam as claras de ovos para engomar os hábitos que vestiam. Bem, isso é só parte da história. Açúcar, ingrediente que esses doces consomem em quantidades olímpicas, nunca foi coisa muito barata; além disso, uma doçaria tão complexa não nasceria somente da mera necessidade. Quando você precisa se livrar de um ingrediente, não gasta outros tantos ainda mais caros na mistura – não faz sentido, certo?

A charada se resolve se olharmos melhor para o cenário dos doces: para os conventos iam as filhas de nobres e famílias abastadas que não conseguiam casamento. Junto com o dote, as moças vinham com seus hábitos alimentares e receitas de família -mesas onde açúcar não era raro, portanto. Ora, com dinheiro, conhecimento e um ambiente de recolhimento, dá para criar bastante coisa…

Pondo tudo isso junto, nasciam os docinhos que acabaram influenciando nosso paladar tantos séculos para a frente (quindim, pudim de leite e queijadinha são parentes dos doces de convento). Acompanhado de um bom cálice de vinho do Porto, que se danem as calorias e o pecado da gula – para citar outro chavão cristão, é de comer de joelhos, oras pois…

Para visitar: Mostra Internacional de Doces e Licores Conventuais, que acontece anualmente em novembro no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal.

Mais um pouco do quê?

Se você tem mais de 25 anos, provavelmente assistiu Aladdin no cinema, ou então em um daqueles VHS de caixa amarela que a Disney comercializava na época. E, se assistiu, aposto que nunca esqueceu dessa canção (no original cantada por Robin Williams, e no Brasil com a voz do grande dublador Márcio Simões):

O que isso tem a ver com o site, você se pergunta. Bem, pegue a letra a partir de 00:56 no vídeo e me diga – o Gênio está cantando o quê? “Pode dizer o que vai querer / mais um pouco de blá-blá-blá?”

Na verdade, eis aí um virundum comestível – é “mais um pouco de baklava“. Bem a propósito, porque, sendo um doce onipresente em todo o Oriente Médio, dá para imaginar que Aladdin, sendo pobre, devia sonhar com doces como esse durante a noite – no que o Gênio, muito esperto, o oferece como tentação na hora de apregoar suas habilidades.

Não sou eu que estou vendo demais, é o doce que é mesmo parte dos hábitos do povo do Oriente. Deixemos Claudia Roden – uma das grandes especialistas em comida árabe do mundo – falar sobre ele:

Por todo o Oriente Médio, as baklavas (…) estão presentes em todas as festas e são servidas em toda as ocasiões. Nenhuma padaria ou café pode ficar sem elas. Elas seguem até no lombo de burros nos feriados nacionais em que se fazem piqueniques nos cemitérios, preenchendo as cestas ao lado de picles, pão, alface e falafel. Eles são parte das celebrações aos mortos; símbolos do amor pelos que partiram e, que, assim se acredita, deixam as tumbas para brincar nos balanços e gangorras, e para apreciar os dançarinos, músicos, acrobatas e mágicos ao lado de seus parentes.

(The New Book of Middle Eastern Food,pg. 431)

Se você já foi a uma casa de esfirras na vida, já viu uma baklava de perto na geladeira de  doces árabes que, em geral, fica logo na entrada desse tipo de estabelecimento. É tradicionalmente cortada em losangos, recheada com pistache ou nozes e coberta com aquela calda de açúcar e água de flor de laranjeira que dá dor de dente só de olhar.

Aliás, parênteses. Um bom doce árabe não pode ficar nadando em calda. É preciso ter mão boa e senso de proporção para dosar a quantidade, e não deixar que o açúcar cubra o sabor do recheio…!

A baklava, pelo tanto que se sabe, é de origem otomana; ela aparece em várias versões não só no mundo árabe, mas nos Balcãs e países como Armênia, Chipre e Grécia. Como quase todo prato árabe, não existe uma versão definitiva ou D.O.C. para a baklava. Embora o recheio mais comum seja mesmo pistache ou nozes, é possível achar receitas com amêndoas, cardamomo, canela e cravo, entre outras. A calda também varia: água de rosas ou mel substituem a mistura de açúcar e água de flor de laranjeira.

Se você passar na sua casa de esfirras preferida hoje, peça um café sem açúcar, uma baklava e pronto: viagem para o Oriente garantida, pelo menos na imaginação. E nem precisa de Gênio pra atender o pedido (embora se aparecesse um no caminho, não seria de todo ruim…)

Para ler: The New Book of Middle Eastern Food, Claudia Roden (ed. Knopf), o clássico do gênero. Uma versão resumida, boa para iniciantes, é A Middle Eastern Feast (ed. Penguin).

Para ver: Aladdin (Disney) na versão remasterizada de preferência. Dublada ou legendada, à escolha do freguês.

Para tentar em casa: uma boa receita de baklava à moda síria (em inglês)